26 Outubro 2009

Saramago anda angustiado depois de ler aquele manual de maus costumes.
Agarrou-se a Caim como quem desespera pela boleia do último anjo a fazer a viagem para o reino dos imortais.

06 Outubro 2009


este é o Jimmy
nasceu em Barcelos faz 10 semanas.
Aínda não conhece a casa da nova família
por estar de "quarentena",
mas em breve fará parte dela.
A razão é a imunização à parvovirose
que roubou a vida ao nosso Tommy.

30 Setembro 2009

Ontem, o Presidente falou.
O povo estava lá. Queria provas.
Cadáveres, ossadas,
nomes, factos, dias, horas…
Mas não. Nada,
qual péssimo aprendiz de Hitchcok.
Já lá vai o tempo que de Belém se davam novas ao mundo.
A melancolia continua.
Não fosse este Benfica
e estaríamos num coma profundo!

23 Setembro 2009

Este país não mudou.
Não mudou porque o país é gente
e as gentes continuam iguais.
A maturidade política, aparentemente, está igual.
É que o povo, não mudou. Continua dependente
do cinismo das campanhas eleitorais
a troco de umas benesses sociais, de uns subsídios.
Esqueceu facilmente
o quanto se morreu
somente numa legislatura.
Mau de mais para ser verdade.
Este país é gente,
aparentemente.

03 Setembro 2009


Quem não gosta
não vê ou não lê.
Contra a domesticação da informação !

15 Agosto 2009

Nazaré ficou para trás.

Sol, praia, mar, gastronomia,

dias sem rotina

e compromisso.

Recomenda-se.

20 Julho 2009

As férias visitam-me.
Cedo descobri que nas estantes me aguardam pirâmides de papéis à espera de arrumação. Um ano deles! Amontoados sem ordem nem critério! Entre mim e eles, nas tardes que se adivinham de calor, não há diálogo. Limito-me a estar deste lado, a dar-lhes o destino que merecem para um futuro registo do meu tempo.
Não é agradável sentir-me refém desse destino.
Em tudo se encerram memórias de um tempo. Não digo que seja meu, mas é também o meu tempo. Não este, que agora se inicia, mas aquele que começou antes das primeiras vogais redondas, como o útero da mãe ou o doce sorriso de quem nos afagou no regaço com o perímetro do mundo.

24 Junho 2009

Chegou na tenra infância
e na infância partiu…
Era um turbilhão de energia,
uma fonte de luz,
uma alegre companhia
o príncipe das nossas vidas.
Faz uma semana que partiu
sob o nosso olhar humedecido.

fica bem Tommy…….......…..
……………………………….........
Dou-te a minha mão
Mesmo que não a sintas…...........

17 Junho 2009


Depois de uns intermináveis dias de sonora agonia,
deixou-nos.
23h00 ......... O Tommy partiu......
partiu como partem todos os príncipes a caminho do reino.
Ficámos pequeninos,
como ele.
Resta o incómodo silêncio da sua ausência!
A vida explica-se
a morte, não.

21 Maio 2009

Chegou ontem ao fim o meu consulado.
É bom respirar as aragens do anonimato
entre sonos bem dormidos
e amanhãs sem a geometria das agendas.
É assim que gosto de viver
entre o sorriso dos outros
e os meus.

22 Abril 2009



Hoje
a menos de um par de luas
de gritar Abril
tivemos a coragem de o celebrar.
Levamos o Martins à escola
onde contou aos meninos
como é que um, ainda moço, oficial miliciano
ajudou a derrubar os homens grandes
que escondiam a liberdade.
Deu nome
aos passos que desenhou na madrugada,
naquela distante noite que os dias mudaria.
E os meninos escutaram, perguntaram,
sorriram,
agradeceram.
Bateram palmas ao professor que foi menino
ao menino que foi moço e militar
daqueles homens comuns,
a quem emprestaram uma arma e uma farda,
daqueles que, injustamente, os livros nem falam.
É que ninguém sabe de cor
os nomes de todos os heróis
e por isso os livros deviam ter
páginas intercaladas em branco.
Em branco porque não dizem tudo,
e para que cada um de nós
acrescentasse a Abril o que dele falta...
Mas a menos de duas luas
de celebrar Abril
contenho-me ...
..........................
Ainda não é Abril.


(obrigado companheiro Antº Martins)

14 Abril 2009

É confrangedor e sufocante este gemer moribundo do país...
Recuso-me sentar nesta mesa socialista
nem que a sobrevivência dependa deste caldo.
Comigo nunca serão treze!

14 Outubro 2008




A Sindie (pastor alemão) e o Tommy (Yorkshire Terrier) são os responsáveis pela agitação dos fins-de-semana. A família cresceu. Adeus sossego.
... vivam estes meus companheiros irrequietos!

26 Setembro 2008

Juntou o povo às ilhas e desenhou histórias,
acrescentou o negro às pedras e fez basalto,
deu cor às águas e teve o Atlântico.
Adocicou a vida narrando eternos dramas humanos,
entre parágrafos
ergueu epopeias à pequenez dos humildes.
Dias de Melo partiu.

13 Setembro 2008

So há uma forma de credibilizar o que se tem - dar aos outros igual possibilidade de o ter (assim pensou o engenheiro). O homem encontrou a fórmula : O DIA DO DIPLOMA A PATACO !

12 Setembro 2008

Imaginou alguma vez entrar numa estação dos CTT e dar-se conta que lá mesmo pode adquirir dicionários, bolas, óculos, postais de aniversário, fracções da lotaria nacional, produtos financeiros, bonés, canetas, peluches e nem imagino mais o quê….? Pois é assim mesmo.
Um pouco perplexos; assim ficamos. Bem sei - falta a arroz, as massas, o detergente, as margarinas… e muita, muita simpatia e celeridade no atendimento!
Sugiro ao ministro da tutela, em nome da liberdade concorrencial, que permita às grandes superfícies comerciais e a toda a chinesice de lojas nesta terrinha, fazerem a distribuição postal.
No mundo dos negócios a voracidade competitiva ultrapassa o imaginável.É nesta direcção que nos arrastam a “distinta” casta dirigente deste país.

11 Setembro 2008


O mundo não mais foi o mesmo
mas a liberdade
não ruíu

28 Agosto 2008

Último dia de férias,

derradeiras horas de vida.
Amanhã
mudo de cor, de rosto, de nome.

Amanhã
fingirei que que não vivi
que não senti, que não gostei.

Amanhã quando acordar
vou fechar os olhos
e desejar que não existam

amanhãs ...

26 Agosto 2008

Desceu o pano em Pequim. As Olimpíadas voltam em Londres.
Regiões independentistas, violação dos direitos humanos, repressão policial, baixos salários, máfias políticas e manipulação da informação também acontecem no velho mundo. Os chineses estão de parabéns. A comitiva lusa nem por isso.

O mês de Agosto em Portugal foi marcado por uma enormidade de crimes violentos jamais contabilizados. Foram-se os brandos costumes.

Os políticos e as grandes decisões políticas estiveram ausentes para férias. Precisamos de descanso – agradecemos.

20 Agosto 2008

.... recomenda-se.

19 Agosto 2008






Fim de linha .

Rias Baixas. Galiza.

Para o ano há mais...


30 Julho 2008

Há perdas de tempo que não se resolvem só porque a gente o deseja.
São demasiadas e repetitivas as torturas por que passo e que me levam a crer que há em mim um qualquer íman que me faz atrair para situações bizarras. Um bom dia começa logo pelas 9h00 numa enorme fila de atendimento ao balcão da EDP. Meia hora depois de chegar, desisto. Não avançara um único metro! Volto à tarde, digo. Balcão de uma companhia de seguros, 9h30. Apenas uma pessoa à minha frente. Que sorte, penso. Outra meia hora gasta para ser atendido. Minutos depois outra fila de espera nos serviços municipalizados de água. Enfrento pacientemente. Uma hora depois estou de volta à vida.
Restavam uns minutos para se esgotar a manhã. Corro para a loja da TV Cabo. Sento-me. Aguardo que meia-dúzia de cidadãos sejam atendidos. As modernices nos atendimentos tresandam a “paneleirice”. Falta eficácia e lucidez a quem atende. Vende-se mais depressa um escafandro a um parolo do que um pacote de canais gold a um esclarecido. Os minutos passam. Hora e meia depois estou de volta ao ar puro. Não sobra tempo para o almoço. Corro.
De regresso à loja do cidadão enfrento uma interminável fila no balcão da EDP. Não renuncio. Trinta anónimos antes de mim, buscam resolver os seus problemas. Eu também. Apenas mais um entre idosos, grávidas, putos irrequietos e barulhentos, obesos sonolentos, jovens irreverentes, contribuintes impacientes, revolucionários, trolhas, ex-combatentes, galanteadores, emigrantes aburguesados, máquinas de suor, ...
Duas horas e meia em pé, qual sentinela. Nada de salamaleques e assunto tratado, em dois minutos! Senti-me orgulhoso; sobrevivi.
Regresso pelo hipermercado. Reproduzem-se as situações esquisitas.
Sacos de fruta furados; desculpe - caixa vai encerrar, multibanco fora-se-serviço.
Ok. Entendo. É Portugal no seu melhor.
Não sei se é por isso que há tanto absentismo no trabalho ou se é para isto que serve um dia de férias.
Dezanove horas, de um dia(?).
Vosso, Petrificado.

23 Julho 2008


Férias...
Primeiro dia.
De tanto as desejar, começo sem saber o que fazer primeiro.
Legítimas dúvidas de um sobrevivente às inclemências laborais.
Premeio-me desfrutando este momento contemplativo. Sem agenda. Sem auroras nem ocasos. Sim. Nada de excessos. Não me esgoto em cada neblina nem me rendo ao calendário da preguiça.
Vou abandonar o perímetro da racionalidade e tentar conseguir reescrever a história. Vivê-la. Entre abundâncias de iodo e banquetes de clorofila, luxúrias gastronómicas e uns caminhares errantes por algures, desenharei o mapa de uma narrativa. Isso. Uma história trivial que não se vai ler, que não se vai contar nem se escrever. Fingir até que existem férias sem grandes histórias.
Fingir ignorar a palidez deste país cheio de história e de sol; exceder-me em ignorância.
Esquecer que entre o dia de ontem e o outro que não vem longe, existe trabalho e os interlúdios são, apenas, lapsos de irracionalidade de quem luta pela sobrevivência da espécie.

09 Julho 2008

A ideia era folhear um livro.
Estiquei o braço o para alcançar.
Fiquei entre a ideia e o gesto.
Hesitei.
A mão ficou quieta a agarrar coisa nenhuma.
O olhar desviara-se uns centímetros mais acima.
Uma lombada simples,
Não me recordo em que tons.
Sem nome de autor.
Apenas o título
“Onde posso escutar a verdade?”
Renunciei aos propósitos da primeira escolha
e a segunda, não chegou a ser opção.
Recolhi o braço.
Hoje
arredondo por excesso as razões daquela hesitação.

01 Julho 2008

Não se emenda um erro,
não se altera um passado,
não se refaz o que não fizemos,
não se faz bem o que se fez mal.
Antes que a vida nos falhe,
ou nos escondamos dos dias errados
aceitemos o que está feito.
Bem ou mal, ficou.
Naturalmente, nunca somos o paradigma.
Apetece-nos sempre ser outro,
e esse, às vezes, também não.

17 Junho 2008

Por mais que o mundo se transforme
o Verão aparece como uma espécie de interregno nos negócios terrenos onde se perde tempo a ganhar bronzeado ou se ganha energias perdendo os dias.
A temporada estival está nas redondezas e a preguiça é um ritual.
Quase um imperativo
sustentarmos este desejo de emigrar dentro de nós mesmos
qual único reduto provinciano
que desejamos, temporariamente, abandonar.

11 Junho 2008


não exigi hora para ver nascer o sol
não reclamarei quando o poente se extinguir.
..... espero os anos que me pedes ....

06 Junho 2008

Ontem, pela primeira vez este ano, vi as andorinhas.
Voltaram.
Os catraios pinchavam aí pelos jardins.
Elas e eles celebram a Primavera.
Em voos de fantasia
desenhavam a liberdade que os corpos permitem.
Ainda que tarde,
sob as mesmas minudências térreas,
onde se perdem os dias
eles e elas cumpriam rituais.
O da vida
e o de viver.

30 Maio 2008

A Primavera teima em escapar aos desejos do espírito;
teimosa, repetida e ingenuamente
nunca sei quando o Outono realmente se aproxima ...

06 Maio 2008

Há que pensar no que se diz porque hoje já não se diz exactamente o que se pensa.
É o neo-liberalismo linguístico emergente ou a postura do discurso pró-activo.
Exaspera-se com tanta especulação discursiva
com o valor imaterial e substantivo do vocábulo,
não pelo sentido das coisas, mas pelas coisas sem sentido.

08 Abril 2008

… e trouxe o sol no corpo,
por estes dias
foi meu prisioneiro;
faço retardar a hora
em que a palidez acabará por me amanhecer.

04 Abril 2008

Hoje acordei
com um pássaro pendurado na madrugada.
Daqueles que escapam lá dos poentes
um pouco antes do sol
esticar seus braços
para abraçar um novo dia.

28 Março 2008

A noite chega ao correr da chuva, como as histórias.
Narrativas de dias cinzentos em frente de nada.
Cinzentos de chuva ou histórias de poucas palavras que ainda assim teimam em não sair.
Na boca, sabor a silêncios. Dos dedos, cumplicidade.
Dou conta que tenho as paredes forradas de palavras. De vida e letras. De histórias.
Daquelas que teimam em não sair. Não querem ser desenhadas.
Mesmo assim, teimo.
Não me apetece arrumar as palavras.
É na noite que elas se agitam.
Assim são as palavras. Todas juntas, muitas palavras.
Se ao menos houvesse lua, eu desenhava uma palavra... mas não.
Não posso desenhar uma história sem uma lua.
Mas hoje não. Não a encontro.
E não a encontro porque não existe.
Vou ficar por aqui. Numa cadeira qualquer entregue à noite. Talvez assim, fingindo dormir, imaginando a noite...apareçam as palavras.

25 Março 2008

Deixa-me desenhar uma casa. A tua casa . E colocar lá dentro tudo o que faz dos dias, sentido. Leva-la-ei aos ombros, devagar, até quando fores velhinha. Deixa-me pinta-la de transparências, de longos prados, de planícies de pão e ocasos serenos.
Decora-la-ei com músicas que só tu poderás entender. Risos, choros, chilrear de pássaros, pingos de chuva que te visitem nas vidraças.
Uma casa que acorde de noite com histórias que adormecem de dia nas estantes e se deite no colo das muitas manhãs que farei por viveres.
Deixarei um sol em cada tecto que brilhará ainda mais quando passares. Um sol que
não te deixará fechar os olhos a não ser para sonhar. Agarrada ao tempo.
E já agora, deixo-te uns canteiros sem nuvens, de cores sem cor, para rimarem com o brilho dos teus olhos.
Visitar-te-ei, sempre, para mudarmos a decoração. Quando o entenderes.
Todos os dias,
talvez.

16 Março 2008

A história, a de todos e a de cada um, deve-se reescrever, de vez em quando, com a humildade dos vencidos.
Escrita, meditada, desenhada com os nossos próprios dedos.
Vivida e conservada como um legado do tempo e da língua. Uma história, uma vida pró­pria, que se completa com demais histórias e se prolon­ga para lá das coisas breves.
Apenas história, memórias desarrumadas envelhecidas serenamente na intimidade de gavetas à sombra de cada coisa que escrevemos.

04 Março 2008

O país cansa
É tristonho, cabisbaixo, mudo, manietado.
É o país de muito circo e pouco pão.
Em tempos o pão era para os pobres
e hoje os palhaços somos nós.

28 Fevereiro 2008

Colheitas da blogosfera

“um líder rebelde chamado Salsinha? – Não brinquem. Quando forem um país a sério chamem o Obama.”

“se estamos em alerta amarelo é porque vem aí mais uma inundação de lojas chinesas”

“a saída do Correia de Campos e de Isabel Pires de Lima foi um pequeno passo para o país, um grande passo para Sócrates”.

“Inscreva-se num partido centrão. Feche os olhos, engula em seco. Suba a um Banco, ao Lyons, à Maçonaria, à Opus Dei. Vale a pena engolir qualquer merda sem mastigar. Habitue-se e ainda chegará a ministeriável.”

25 Janeiro 2008

Nos fins de tarde
empresto os olhos ao Inverno
como se fosse parte do meu próprio corpo
e o sol entrega-lhe o palco
para ir nascer noutro lugar.

04 Janeiro 2008

No início de mais um ano não ignore:
- andar por aí nas nossas estradas mata!
- fumar mata !
- trabalhar para o excelente mata !
- comer gorduras mata !
- ingerir álcool mata !
- andar de noite na rua mata!
- sedentarismo mata !
- pagar tanto imposto mata !
- esperar pelo serviço de urgência mata !
- não praticar desporto mata !
- ser funcionário público mata !
- esperar por um Portugal justo mata !
Em suma, ou vamos à luta
ou morremos estúpidos.
Façam por sobreviver; bom ano.

30 Dezembro 2007

Num conto de Natal existem crianças.
Natal é isso mesmo – Nascimento - uma vida para fazer.
Mas nesta história não.
Não há crianças.
Nem menino nem menina
nem o encanto das ofertas ou o fascínio das luzes coloridas.
Antes um ancião
que de tão velho ser
se esquecera que também ele fora menino.
Perdera a cor da memória,
esquecera que havia um tempo de festa,
uma noite diferente. Mas as suas noites eram assim – sempre diferentes
e por essa razão sem motivo para festejos.
Cruzou errante as ruelas num movimento contínuo,
arrastado, à cadência dos segundos sob a inércia do calendário.
Houvera tempos em que dos seus dias não sobrava tempo.
Agora era diferente. Havia tempo e espaço.
Um luar e uma noite,
esperando por uma estrela
que anunciasse o ocaso da vida.
… por isso nascera e
… também ele, afinal, tivera um Natal.

20 Dezembro 2007


28 Novembro 2007


20 Novembro 2007

Não foi preciso esta greve da recolha de lixo em Lisboa (Valorsul) para ver como Lisboa e arredores está afogada em esterco. A capital revela o nosso verdadeiro estado: nem a merda já queremos esconder.
O país afunda-se em dejectos
no melhor dos nossos estilos.

18 Novembro 2007

Faz tempo que a razão me desviou do caminho do Graal.
Tenho mesmo de trabalhar,
pelo que agradeço antecipadamente à entidade reguladora da longevidade
que me faculte a entrada no rol dos sobreviventes pós 65 para saber das tonalidades da preguiça.
É que soube de um tal Almerindo que foi da televisão para a rua e pelo que dizem, não estará nada mal, ao contrário dos sem-abrigo que conhcemos.

10 Novembro 2007


.... e a vida não acabou …

As conclusões de um recente estudo internacional, promovido pela Direcção-Geral de Saúde e pelo Instituto Egas Moniz, realizado em 11 países, concluiu que um quarto dos portugueses “não lava as mãos quando contacta com animais, antes das refeições e depois de ir à casa-de-banho”, sendo que 45 por cento dos portugueses admite também falhar essa medida de higiene sempre que espirra ou tosse. Apesar do estudo revelar que os interruptores, auscultadores de telefone ou comandos de televisão são os locais onde se concentram maiores quantidades de germes, cerca de 38 por cento dos portugueses continua a acreditar que os locais mais contaminados são a sanita e/ou a roupa suja.
É uma prosa interessante para quem vive da virologia, das doenças infecto-contagiosas, imunologia e da saúde pública, mas não ignoramos que as nossas avós mijavam de pé, que o porco e as galinhas ornamentavam a soleira da porta, que todos os putos cagavam atrás de um portão qualquer e que toda a família tomava banho ao sábado numa única água em banheiras de zinco.
Com esta imundice toda procriaram estes seres lindos e sábios que não se atormentam com a promiscuidade intelectual destes cultores da esterilidade biológica que nos quer híbridos.

13 Outubro 2007

Dezenas de vezes assisti à procissão do adeus
outras tantas me emocionei profundamente
sem nunca querer saber a razão.
Acenar à mãe fragiliza
fragiliza quem parte
fragiliza que fica
fragiliza quem assiste
numa despedida onde se dividem corações.
Fátima emociona ...
Não porque é o altar do mundo
não por ser o regaço onde o silêncio é escutado
não porque todas as nossas ausências são perdoadas
Mas porque é a casa da Mãe.

02 Outubro 2007

Setembro arrumado.
Quatro anos de palavras
de letras desenhadas a compasso
dos silêncios que não se podem guardar.
Obrigado por me lerem
por darem cor aos intervalos
que as palavras preenchem.

12 Setembro 2007

Estava tentado a dizer-vos que não há nada para escrever,
mas há.
Que Setembro é sereno
que as aves voam para sul
as crianças para a escola
o trânsito entope as artérias
a bola já corre
os noticiários dão-nos notícias
os políticos disparates
os governantes brindes
o emprego dores de cabeça.
Que o Sol nasce e recolhe com o rigor do metrónomo
na geometria dos nos nosso actos;
- e estava eu tentado a dizer que não há nada de novo.

05 Setembro 2007

Não me atormenta questionar sobre a inclemência do Verão
que tanto nos agasalha como nos despe.
Assim que conheci todos os Verões,
rebeldes, tórridos, inesperados, tormentosos,
feitos de Agostos religiosamente vividos.
Hoje, chamam-lhe anacrónico e perguntam-lhe pela sensatez.
Verão é a chama que nele sentem - o que se deseja e o que se recorda.
Não questiono a razão dessas inclemências
e aprendi a não discutir com o futuro...

28 Agosto 2007

Sabes,
eu também já fui assim,
como tu.

Começando pelo fim …
Faz hoje dois dias que arrumo coisas.
Por enquanto não tive tempo para arrumar a cabeça. Era por aí que eu devia ter começado.
Por agora esqueço que há outras coisas e mergulho nos papéis.
Olho, escolho, selecciono, leio, rasgo.
Rasgo, rasgo, rasgo.
Rasgo aquilo que testemunha que existi. Envio para o lixo anos de mim.
Daquele lixo que toda a gente julga ser indispensável guardar para dar prova que passou por este planeta. É assim que me julgo neste momento deprimente.
Deitar fora pedacinhos de mim. Como se não fossemos todos um monte frágil de pedaços. E rasgo compulsivamente, como se não quisesse levar comigo as provas de que existi.
Doem-me os dedos, os olhos, as costas. Paro um pouco. Agarro com carinho uns postais que me deste nos diferentes dias-do-pai. Tenho-os todos. Juntinhos. Sorrio.
Lembro-me onde andavas, que idade tinhas e da surpresa que tive quando mos deste.
É claro que não ficam para trás. Nunca os rasgaria!
Os filhos nunca ficam para trás, nunca se rasgam.
Interrompo o meu destempero com lágrimas e um sorriso.
Como passou o tempo! (…) Tás a ver como já fui como tu?!

21 Agosto 2007

Se um destes dias
lhe incendiarem o automóvel porque o acham poluidor ,
Se lhe baterem porque fuma,
Se lhe rasgarem a gravata de seda,
Se lhe assaltarem a casa para levarem o calçado de pele,
Se o lançarem numa fossa céptica porque tresanda a Dior,
Se obrigarem os obesos a comerem alfaces,
Se lhe oferecerem uma caverna para viver,
Não faça feio. É a ecotopia
Um novo conceito de destruir o alheio impunemente.

16 Agosto 2007

Por questão de hábito e de fidelidade à rotina não ouso terminar com os enganos. Os meus enganos. Com esta idade não me vale a pena fingir dono da lucidez.
O nosso cientista Damásio disse que o próprio Descartes se tinha enganado.
E a minha modéstia deixa-me umas jardas abaixo do francês; logo…
… entre dois copos de tinto e uma sandes de coiratos numa reles taberna perdida no geomap há quem queira enganar-me vendendo-me a ideia de que empresas multinacionais de sucesso permitem que funcionários seus usem brinco, piercings, andem de bicicleta ou de patins dentro da empresa. Imperturbável, sorrio. Aqui nem o reles tinto me engana. Não imagino um cenário igual em Portugal. Nem em pedaço nenhum de terra onde eu ganhasse prás minhas côdeas.
Entre nós vejo antes um gajo que finge trabalhar enquanto dá voltas à cabeça imaginando como vai papar a viscondessa de distintas elipses sentada na secretária não muito longe da sua. Galanteios, flores, perfumes, convites para lanchar, tudo serve para alcançar o sucesso - até mesmo tirar os boxers e quiçá exibir estampado o rubro martelo do proletariado.
Empresa de sucesso é isso – excelência nas relações interpessoais e criatividade;
Agora piercings e patins?!!
Estarei novamente enganado ?
Deixai lá,
roubou-se-me a lucidez.
Apenas merdas que arrastamos das férias.

20 Julho 2007

A aldeia mudou.

A minha aldeia tem meio século.
Em meio século ganha-se, não se perde.
Mas a minha aldeia perdeu.
Perdeu o romantismo, a paz, o silêncio, a cumplicidade, o sorriso,

o ganha-pão, os aromas da cozinha e os ruídos do trabalho.
Já não é o último refúgio da civilização industrial, o cantinho ecologicamente preservado, o lugar distante que todos aproximava.

A verdade é que as aldeias mudaram.
Contra-natura pensar o contrário.
Hoje, a minha aldeia tem água canalizada, luz, esgotos, estradas, electricidade, sinal de televisão, telemóveis, capelas com relógios eléctricos. Mas
perdeu gente, vida.
Perdeu escolas e a algazarra dos meninos.
Está a perder os velhos
e as delícias de uma vida contada em capítulos.
Ir à aldeia passou a ser um stress,

parece irreversível – a aldeia já não é.

14 Julho 2007

O Faustino Perna Dasno, nome de guerra dado pela milícia lá da confraria, teve uma vida atribulada. Três décadas depois de nascer, foi entregue a um casal para adopção. Míopes, não deram conta que era anão.
Anos depois, os pais biológicos requereram a tutela do filho com base em boatos de homossexualidade do pai adoptante que andava fascinado com a virilidade precoce do garoto. Os pais biológicos ganharam a causa e uns meses depois voltaram às mais valias revendendo o marrão a um casal de andaluzes inférteis. O falso petiz acabou por não ser vendido; o cheque não tinha cobertura. Acabou dado lá para Peniche, a uma tia biológica, viúva, amante da genuína alheira de Mirandela, que requereu a tutela do miúdo, gozando em plenitude a companhia do falso mocinho que activou os encantos de uma berlenga até então esmorecida.

06 Julho 2007

Falsa virtude esta
de se poder morrer
apenas por uma questão de semântica.
(* das decisões de juntas médicas)

27 Junho 2007

Este Governo
- criou um órgão de coordenação de todas as polícias sob tutela directa do primeiro-ministro;
- reformou o estatuto do jornalista e da entidade reguladora que rege a comunicação social;
- expôs publicamente alguns devedores fiscais;
- promoveu a delação de agentes do estado sob condutas suspeitas;
- instaura processos disciplinares a professores e a militares que se manifestam;
- leva a tribunal responsáveis por blogues que denunciam o que não se conseguiu esconder;
- criou o bilhete de identidade único onde o pessoal e o privado ficam à mercê de um chip que todos desejamos não ver clonado.

* aos que elegeram Salazar como o grande português, vejam aqui o que se pode fazer, só em meia legislatura !

20 Junho 2007

Não,
hoje não falo nem escrevo
sobre o que me rouba a serenidade
que me vão permitindo ter.
Não,
não creio neste "socialismo"
que nacionaliza o livre pensamento.
Hoje não.

17 Junho 2007

Efabulador, eu ?!
Querem dizer que
qualquer dia vou com a tropa ?
Claro, só espero que saiam do quartel para me juntar ao pelotão.

13 Junho 2007

O destempero da Educação
A ética, a deontologia, o bom-senso, estão sujeitos ao estado de espírito do tutor.
A Escola já não é o ninho das liberdades oratórias.
“la loi c´est moi”.

Fidelidade ou alienação ?

03 Junho 2007

Não pára de crescer a emigração portuguesa.
É vê-los a atravessar as fronteiras em carrinhas apinhadas.
Há cinquenta anos levavam a trouxa e o garrafão;
hoje o portátil e o diploma.
Este Governo sempre encontrou uma solução para baixar o desemprego, virou uma agência de colocação de trabalhadores portugueses no estrangeiro.

30 Maio 2007

É dia de greve nacional.
Só para alguns, dirão os mais ociosos.
Ociosos sim; aqueles que andam com o cio todo julgando que levam, como ninguém, a crise e o país às costas. Tanto quanto a intuição me segreda, não se livram da erecção enquanto os ranhosos inquilinos de S. Bento não pararem de libertar as feromonas que os estimulam.
E enquanto esses Atlas se extasiam carregando as bolas dos outros, resta-me um último desejo – de os ver todos a optar pelo Poceirão.
Sim, mergulhados num gigantesco poceirão, tomando-se dos fluidos da nacionalidade.

28 Maio 2007

O ideário do governo socialista é mais silencioso do que a meditação budista. Esta austeridade ideológica ameaça a inteligência dos cidadãos. As ideias transformam-se em rotineiros bitaites ministeriais. Nem as gafes dos ministros incomodam Sócrates e o seu estilo consolida-se. Sem partido, com uma maioria dócil, uma oposição do tipo berçário e um movimento sindical afónico, o maçon do papiro em engenharia reina neste prado de liberdade.
Haja tolerância.

25 Maio 2007

“Se a moda pega, instigada que está a delação, em breve teremos uns milhares de docentes presos políticos, outros de boca e de consciência aprisionada, tentando ensinar aos nossos alunos os valores da democracia, da tolerância, do pluralismo, dos direitos humanos, do sabor da liberdade e de outras coisas que, de tão remotas, já nem sabemos o real significado, perante a prática que nos rodeia.”
Hápoio.
Concordo.
Sou assim, na cara.
Foda-se, sou do norte!
O quê?!!! Tou suspenso,
De quê caralho?!

Opção um – mudar o maquinista.
Opção dois – mudar de combóio.
Opção três – implorar aos terroristas que não dinamitem as pontes de acesso à margem sul.
Opção quatro – sonhar que este pesadelo terminará com as próximas legislativas.
Opção cinco – acordar.
Opção seis - calar-me.
Filiar-me na clandestinidade – não chega a ser opção.
Desportugalizar-me?
Jamais (em francês) !!!
Ahhh … o ministro dos tijolos também fez "francês técnico"?

23 Maio 2007

Estou fortemente convencido que o Ministro dos tijolos, Mário Lino, não lê os diplomas cozinhados pelo patrão e que conhece apenas metade do país onde vive quando diz que “Fazer um aeroporto na margem sul seria um projecto megalómano e faraónico porque além das questões ambientais, não há gente, não há hospitais, não há escolas, não há hotéis, não há comércio”
Ei, psssttt, alguém por aí sabe de algum lugarejo com escolas, hotéis, hospitais e comércio onde se possa construir um aeroporto no meio ????
Ah, claro, tem de ser próximo da capital, caso contrário não seria o novo aeroporto de Lisboa.
Este homem é um Engenheiro, carago!

22 Maio 2007

Soube-se dum processo disciplinar instaurado a um licenciado da Direcção Regional de Educação do Norte (DREN) por este ter gracejado sobre a licenciatura do primeiro-ministro.
Há por aí gentinha excessivamente zelosa, armada em defensora da honra perdida do engenheiro. Antigamente chamavam-lhes bufos. Hoje, fiéis assessores.
Ontem, como agora, nutrem-se do regime a troco de mordomias.
Ontem silenciavam a azul as palavras que jamais se liam.
Hoje não podem,
existe a blogosfera.

19 Maio 2007

A minha vida começou bem antes de vir ao mundo e até imagino que prosseguirá sem mim por algum tempo.
Conheço dezenas de maneiras de começar a contar essa história.
É que há tantas maneiras de a contar que no final não haverá uma mais verdadeira do que outra. Não há uma mais autêntica do que outra.
Uma por ano; igual, diferente.
Apenas mais uma história geometricamente vivida por cortesia do Criador.
Nota-se à légua que foi generosa para comigo.
Hoje não escolho nenhuma forma para a começar.
Quando terminar os compromissos com o espírito escrevo-a.
Hoje não,
continuo a ter algumas vírgulas para colocar.

02 Maio 2007

É preciso reescrever a História.
Ensinar o significado de Abril e do dia em que Maio começa.
Ontem o meu povo não saiu à rua.
O governo de esquerda, que instiga à denúncia, que desmembrou o Estado social, que acabou com direitos adquiridos, que aniquilou princípios da solidariedade social, que pôs fim à estabilidade do emprego vitalício, encontrou os servos perfeitos.
A contestação a isto foi zero.
A apatia dos portugueses permitiu os encerramentos e os cortes indiscriminados em nome do défice.
E o meu povo calou.
O país é agora pouco mais de duas léguas junto à costa
onde ninguém protesta
onde ninguém escuta.

01 Maio 2007


Este país nasceu por equívoco.
Daqueles mal-entendidos familiares em que o varão se deu conta que já não era o único Apolo no coração da solitária viúva. Retirou-lhe à força o controlo da herança paterna.
Dessa sina se fez um país pobre, atrasado, triste, fragilizado. Gerou seres pequeninos, presunçosos, quezilentos, obesos de rebeldia e sedentos de poder.
A memória é selectiva. A dos homens, a das nações. O compromisso com a memória não me tranquiliza sabendo que, tirando vantagens pessoais, muitos esquecem a matriz deste povo.
Nos últimos anos, vejo os homens da minha terra chorando na abundância do poder. Rubrico com indignação e apreço a sina dos que fazem do trabalho
a única liberdade.

23 Abril 2007

Trata-nos como relapsos, um amontoado de carne sem espírito, um fardo
de medíocres mal alinhados, de falsos remediados e tumultuosos de fácil combustão.
Na sua dócil oratória quer salvar-nos da nossa podridão, do imobilismo, das posturas conservadoras. Essa duvidosa bondade natural semeou o cepticismo.
As desilusões vão animando o país que definha.
O cavalheiro não tem noção de pátria; de antropologia; de idiossincrasia.
Estamos na foz dessas excentricidades.
Conhecemos outros que se deslumbraram com a possibilidade de cuidarem das nossas vidas entendendo que isso lhes permitia algum crédito na eternidade.

Obriguem-se a ficar bem.

20 Abril 2007

Cento e cinquenta mil empregos !!! Impostos mais baixos !!! Melhor educação !!! Fim de listas de espera na saúde !!! Justiça mais célere ! Polícias mais atentas ! Chamar os jovens para o mundo laboral !
Então meus senhores essa calúnia do "canudo" acham que tem importância ???
Deixem o homem modernizar Portugal, please !

18 Abril 2007

* Segunda-feira os inspectores da IGES deslocaram-se à Universidade com o objectivo de pedir o processo escolar do homem.
* Terça-feira os Inspectores do Ministério do Ensino Superior voltam à Universidade Independente pedindo novamente o processo escolar.
Esta equipa da Inspecção-geral do Ensino Superior esteve entre as 15 e as 17h30 horas, nas instalações da Universidade Independente.
Poucos minutos depois a Universidade adiou a conferência de imprensa.
A direcção da UnI impediu a saída do processo, alegando que os inspectores já o tinham analisado com detalhe e «não encontraram razões para o levar». Continuando guardado no cofre-forte da Universidade.
Sabe-se que o único elemento de avaliação que consta do seu processo escolar é o trabalho de Inglês Técnico.
O resto do processo contém pautas com as notas, em alguns casos têm valores diferentes.
As investigações internas indicam-no como isento de propinas.


É impressionante como nada, ou quase nada muda
digam lá se não é um país de cavalheiros?

17 Abril 2007

Aburguesou-se curricularmente.
Maquiavel não faria melhor.

15 Abril 2007

Isto é gozo?
O Presidente da República no encerramento da conferência "Compromisso Cívico para a Inclusão" em Santarém, mostrou-se preocupado com o baixo nível de instrução dos portugueses.
Num país infestado de títulos académicos que pouco mais fizeram do que contribuir para o desemprego, fome envergonhada, dívidas escondidas e regresso à emigração, aquela referência tem destinatário ou é apenas uma campanha de marketing para limpar uma imagem corporativa?
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Conhece-te a ti mesmo ou o primado de um líder que não deves copiar.

Vagabundeou lá pela Lusíada e nada. O Direito não lhe estava no sangue.
Vê-se hoje que não. Azar o nosso, pois são-lhe reconhecidos dotes de bom causídico. As causas por que luta têm sido, por regra, as mais disparatadas contudo defende-as obstinadamente.
Diz-se apedrejado numa cruzada de maledicência. Saem em sua defesa. Não está só.
Fez amigos onde ninguém imaginava existirem: o Sr Silva, o Gondomarense, o Procurador-mor.
Não duvidamos que tenham descodificado no homem dotes e pureza de carácter ao extremo de ser proposto para uma comenda no próximo 10 de Junho.
Os plebeus mordem os lábios em silêncio.
A gente honesta desta terra foi burlada!
Hilariante, não?

13 Abril 2007

Houve tempo em que ser engenheiro não era grau social; era honra com origem na dignidade e qualidade do trabalho que se executava.
Hoje, percebo: o agente técnico adora ser chamado de engenheiro. É um estatuto de borla, para quem não conseguiu fazer o que desejava: ser mesmo engenheiro.
Os portugueses por regra pouco interessados em questões de natureza civilizacional profunda como o ensino, voltaram a identificar-se com o chefe. Acharam que o homem passou no exame. Aplaudem a recomendação do próprio no “enriquecimento” intelectual das massas. Quem sabe se, à sua semelhança. Que paradigma de carácter!
Os alfabetizados passaram a olhá-lo como um provinciano, um novo-rico da política que faz do status um modo de vida. Um faz de conta …

12 Abril 2007

Liguei para a lavandaria da RTP às 21h00.Enganei-me.
Era da alfaiataria S. Bento. Tudinho à medida.
Deparo-me com o senhor Bach. O músico que se vai tornando célebre.
Divirto-me com a melodia.Tratam-no por Engenheiro. Engenheiro é uma designação com um uso SOCIAL, diz. Tem razão. Aqui também há quem use e abuse. Um cliente vip da casa amarela de Barcelos assim trata todos os desconhecidos que com ele se cruzam.
O gajo merece um óscar! Não teme as tempestades. Representa bem. É um cromo. Compulsivo!Lê a blogosfera e termina a correspondência pessoal com um “yours”; virtudes só de quem fez a cadeira de inglês técnico com o reitor. Até tem amigos que costumam lançar as notas em Agosto. Eu também. Também lanço notas fora em Agosto quando pretendo férias para me afastar deliberadamente desta gentinha.

11 Abril 2007

Temos memória curta, o coração junto à boca e a nascente do Mondego entre os olhos. Atiramo-nos às figuras públicas como gato a espinhas de sardinha. Fazemos julgamentos populares, usamos e abusamos da má língua, da alcunha vernácula e do gesto obsceno, mas borramo-nos facilmente.
O Homem está por horas nas pantalhas. Terá os canudos em cima da mesa. Os diplomas e as licenças de caça, pesca, tiro aos pratos, de contra-mestre, nadador-salvador, de uso e porte de arma, de socorrista, maratonista, de escuteiro do ano, da confraria gastronómica,de inglês-sem-mestre, estenografia, o que for preciso. Dirá algumas trivialidades, falará do tormento que foi crescer e se fazer homem, da família, do bom pai e chefe de família, das calúnias e injúrias, do quão penoso é endireitar um país moribundo, sem cheta. Verterá, como é normal nestes casos, algumas lágrimas e fará encher albufeiras quase em simultâneo. Ficaremos convencidos. Gratos; quase devotos.
No dia seguinte, com a imagem recauchutada, o Homem espantar-se-á com a nossa correria às tesourarias da fazenda pública levando espontaneamente o nosso contributo para a execução da OTA e do TGV.
Ninguém se lembrará mais do encerramento de escolas, de tribunais, maternidades, serviços de urgência, postos policiais.
No fundo somos uns tansos, de memória curta, uns labregotes de gravata de seda com meias esburacadas.
De longe nos pintaram o retrato: “na ponta da ibéria vive um povo de ladrões que não se governa nem se deixa governar” *
*Júlio César dixit.
Ah, o gabinete de imprensa do Imperador Romano telefonou dizendo-se completamente alheio a esta afirmação.

10 Abril 2007

O HOMEM não constrói viadutos, felizmente. Não projecta edifícios. Não desenha auto-estradas. Se construísse pontes, projectasse edifícios ou desenhasse auto-estradas, estaríamos todos muito preocupados. A sua duvidosa e precoce licenciatura em Engenharia Civil na Universidade Independente é a razão deste sentimento.
Nunca pôs de pé nenhuma parede. Provavelmente nunca empinou dois tijolos nem demonstrou a mínima vontade de o vir a fazer. Para além de mandar o barro à parede (promessas de uma cândida campanha eleitoral), a única engenharia a que ele se dedicou foi a política, e nesse campo já deu para ver que a sua especialização é a demolição.
Se o currículo está adulterado, isso é relevante e dirá muito sobre o seu carácter, e o carácter de um primeiro-ministro é um tema de interesse público muito mais que a atitude desde a primeira hora foi a de chutar para canto.
O Ministério do Ensino Superior não sabe nada de finalistas de Engenharia Civil de 1996 ? Um diploma assinado a um domingo é irrelevante ? Fazer as quatro cadeiras finais com um único e mesmo professor é insuspeito? Surgir como engenheiro numa nota biográfica de 1993 é inconclusivo?
O silêncio do Homem é o combustível que alimenta a suspeita. Mas ninguém lhe exige que seja doutor. Apenas se exige que não seja ardiloso e não se esconda a coberto do tempo e doutros acontecimentos que entretanto irão surgindo e fazendo caixa nos periódicos.
Há uma grande OTA para descalçar. Esta é a história do Homem, no apogeu do seu consulado.

08 Abril 2007

Licenciaturas Simplex
* Em 1996 a U.Independente não licenciava engenheiros
* Em 1996 não tinha conselho cientifico
* O mesmo professor fez-lhe quatro cadeiras
* O reitor fez-lhe o exame de inglês técnico
* A filha do reitor assinou o canudo a um domingo
* Os colegas não o viram nunca nas aulas. Só nos exames. Entrava, ficava a um canto e saía antes do fim.
*O ex-motorista, quando ele era secretário de estado de Guterres, testemunha afirmando que o levava às aulas e ficava à espera. Lindo!... Imagine quem pagava a horas-extra do condutor.
* O professor que lhe deu quatro cadeiras acabou no governo, era amigo de Vara (que também tem um daqueles canudos) e acabou expulso do governo depois de ter nomeado uma empregada brasileira do restaurante Bacalhau para um cargo de alta alta responsabilidade; sim o homem que Sampaio obrigou Guterres a demitir, o génio das matrículas K, da tolerância zero e as datas de registo dos carros nas matrículas, o bancário que virou banqueiro depois de passar pelo governo PS.
* Sócrates usava papel timbrado do governo para comunicar com o reitor.
* Não possui nenhum MBA que disse ter concluído no ISCTE (Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa) com 17 valores.
* Do cartão de visita, somente a pós-graduação em engenharia de sanitários parece ter alguma crdibilidade. Anda no ar o aroma dos seus virtuosismos.
* Batata quente na mão de M. Gago. Fidelidades são fidelidades... o homem é gago mas não é burro, por isso o desfecho é previsível. Se mandar fechar o tasco vai descobrir-se mais do que já se sabe; se mantiver o alvará vai ordenar uma sindicância aos serviços administrativos; resultado: os termos perderam-se, os registos documentais estão sem paradeiro, a guerra entre poderes reitorais levou ao desencaminho de elementos de prova, ... ... ... - uma babilónica trapalhada!!!

Para quem defende o rigor, a qualidade do ensino, a excelência, a competência e credibilidade na função pública, para quem quer um país moderno à semelhança da Finlândia, culto e capaz, não me parece grande curriculum, nem atitude recomendável.
No tal paradigma nórdico tão a gosto do bacharel da licenciatura contrafeita, alguns se demitiram por muitíssimo menos.
Depois espantam-se quando o estafado do português elege Salazar como a referência da "pura" casta lusitana.

02 Abril 2007

“Poderá haver perto de 800 mil "eleitores-fantasma" em Portugal”
- só fantasmas podiam legitimar esta confraria que desgoverna Portugal.

“Ministra da Educação visita Escola Portuguesa de Macau.”
- assim gosto! Bem longe! Tudo indica que vai ser esse o destino da Lurdinhas lá para o final do ano.

“A tensão crescente entre o Irão e o Reino Unido levou ao aumento do preço do combustível.” – Mais uma pretexto para os nossos nabos se acharem inimputáveis na política fiscal.

“Politólogos falam de pequena "mossa" na imagem de Sócrates.” -
Eheheh … tá lindo o boneco. Lembra-me cada vez mais um esqueleto que havia lá pelo laboratório do Liceu D. Manuel na década de setenta. Só nos lembrávamos que existia quando apertava a fome (de democracia, acrescento hoje).

“Presidente ucraniano dissolve Parlamento e convoca eleições antecipadas.”
– Ora aqui está um ucraniano que nos fazia muita falta!
Não se arranja um visto para o homem?

26 Março 2007

Repasso num fim de tarde domingueira os gigantescos vultos que me acompanharam na caminhada geracional. São personalidades de referência pelo seu carácter, pela sua persistência, tenacidade, ousadia, grandiosidade de alma.
São vultos arrastados para além das biografias. Um pouco de tudo, ou melhor, um pouco de todos; militares, eclesiásticos, políticos, homens de ciência, das artes.
A monotonia da existência leva-me a considerar estes heróis como fazendo parte dos meus próprios átomos sem o serem.
As suas virtudes não cabem no anónimo desta silhueta.
Repasso-os. O académico de Santa Comba Dão não foi admitido na categoria dos meus eleitos. Não me despenteio pelo esquecimento. Tão pouco finjo ignorar as paixões e saudades nada provincianas que o homem gera.
Modernizadamente conservador, prefiro uma firme mão num breve trecho
que um apertado abraço de meio século.

21 Março 2007

Excessos de algarviadas alegram os comentadores políticos que em redor das mesas de café deste país se desintoxicam com as síndromes etílicas dos governantes. Dizem ser nossos governantes. Mas não. Ninguém nos pertence quando vendem um pedaço de nós e trocam a identidade – Allgarve.
O conivente chefe dos malfeitores acusa a própria sombra de chegar ao “zero absoluto da credibilidade política”- mais uma algarviada do engenheiro. Aquele a quem a Ordem não reconhece a licenciatura académica que possui. Isto sim ! Um zero de credibilidade no absurdo da sua política. Meio Alberto João chegava para dar despacho à encomenda.
Por imperativo da conjuntura , obriguem-se a ficar bem!
Desintoxiquem.

11 Março 2007

Entrego meus dias a estes ancestrais ritos de envelhecimento .
Olhar, respirar, sentir, nas modestas ruelas da efémera existência.
O mundo muda ; mudou muito nos últimos anos.
Mudou demais para que sintamos que toda a novidade é parte da nossa própria ilusão e vontade.
Envelhecemos dele.
Envelhecemos de saudade,
de fartura, de mendicidade, de beligerância, de solidão, de amigos
e de prosas sem sentido.

*(ao meu bom amigo Antº Martins, um abraço)

04 Março 2007

Não entendi a derrota da Sonae como um fracasso do seu patrão. O homem é bom como merceeiro e pronto. Que não queira caixeiras grávidas ou fieis de armazém poliglotas isso é lá com ele. Pronto. Acabou o temor ao senhor dos anéis.
E que o merceeiro se convença que o dinheiro não compra tudo!

Ruíram mais uns metros da muralha da fortaleza de Valença.
Aquele concelho fronteiriço está mais acessível a Espanha.
O ministro da saúde, como excelente pedreiro, ajudou na demolição.
O resto do país seguir-lhe-á o exemplo.

11 Fevereiro 2007


Aqui onde a família vai para além de todos,
onde todos amam cada um,
onde amar começa muito antes de desejar
há lugar, pão, amor e regaço
mesmo para aqueles
que a lei permite não ter nome
por que não se desejam
(em nome daqueles a quem não quiseram amar)

10 Fevereiro 2007

Recruta-se
um parvo qualquer
mesmo sem diploma certificado por Bolonha
para dizimar o actual rebanho governativo.
Estes dez milhões de esclarecidos
com bilhete de cidadão nacional e europeu
Néscios de pandemia socialista
quotizam-se para o efeito.
..........
serviço pago em numerário
com dinheirinho roubado
aos trabalhadores por conta de outrem.

03 Janeiro 2007

... a ti ...
que viveste a tua
as outras
e a minha vida.
Obrigado mãe

19 Dezembro 2006


Talvez em tempos o Homem possuísse em si, o masculino e o feminino.
Talvez fosse ele um gigante, numa época em que a humanidade era constituída por gigantes. Teriam tomado o gosto pelo poder e desafiado os Deuses. A indignação destes levaram-nos a separar o masculino do feminino.
Fora o castigo.
O castigo de passar a vida inteira procurando a outra parte que o faria inteiro novamente.
A lenda adulterou-se por aí ... ... ... Hoje diz-se que O Homem não precisa de ninguém para ser feliz, apenas de uma criatura gigantesca que queira ajudar a carregar a felicidade.

23 Novembro 2006

É com o rosto pousado no mar que guardo a certeza da minha dimensão.
Pequeno, bem mais pequeno do que às vezes penso. Pequeno nos azuis, nos esverdeados, nos cinzas. Pequeno nos mistérios, nas fúrias, no turbilhão dos silêncios.
Quando era criança sentava-me junto ao mar pelo prazer de o escutar. Escutava-o nos lamentos típicos de um gigante prisioneiro da sua imensidão. Destruía-me frágeis castelos de areia erguidos pacientemente por mãos de menino. Voltava e fazia-mo de novo. Era ele quem mandava. Aquele era o seu reino. Ali mesmo jurei não querer ser grande, poderoso, indomável. Era pouco menos que um segredo. Mas ele, rebelde, quebrou as regras e espalhou a notícia.
Uns anos depois voltei. Fizemos as pazes. Continua enorme, azul, esverdeado, cinza. Barulhento, misterioso, rebelde, mas gracioso; levei-lhe umas lágrimas. Gosto dele. Gigantesco, no meio de tudo, perdido no nada.
É parte de mim.

20 Novembro 2006


Não sei
se pelo desconcerto da meteorologia
se pelo desconforto dos dias,
a única realidade é que
desfolhámos como os plátanos,
como as videiras e as tílias.
Agasalhamos este Outono
com a ternura do regaço
de uma estremosa mãe.
Deste velho jardim
faz-se um souto que
esmorece em cores
que não consigo reter,
onde gigantescas penumbras
desnudam a fragilidade
do tempo de que fomos feitos.

09 Novembro 2006

Não há forma de vos mostrar um optimismo que não possuo sobre os destinos deste país. Lamento.
Vai ganhando raízes esta firme convicção que não tivemos a fortuna de ser geridos pelos mais esclarecidos, pelos mais humanos, pelos mais desinteressados.
Nós, portugueses, fomos feitos para o Sol – não para estarmos encerrados em gabinetes desgrenhando-nos pelos objectivos traçados para o destino comum.
Este gigantesco mercado único só acrescentou patologias às existentes. Economistas, gestores, administradores são hoje funestas bençãos que temos de “carregar”. Enquanto divago entre as terapias e as patologias ele vai traçando a milenar elíptica que vos falei. Não vivemos à sombra de ninguém - aprendemos isso com o filho de Henrique; ele que foi o primogénito dos administradores da terra de que vos falo. Desde aí que a historiografia não pára de acrescentar meliantes ao índice.
Entendam a razão do cepticismo. Questão genética, meus caros.
O Homem põe, mas há sempre uma hora em que Deus dispõe.

01 Novembro 2006

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Nunca saí deste mundo, mas às vezes penso conhecer quase tudo.
Nunca soube desenhar, mas aprecio quem desenha.
Nunca me autobiografei, mas há quem me leia todos os dias.
Nunca me dou por vencido, mas já perdi tantas vezes.
Nunca me esqueço de onde venho, mas surpreende-me sempre onde estou.
Nunca perdi ninguém, mas fazem-me falta algumas pessoas.
Nunca me ausentei, mas há sempre quem me chame por eu não estar.

29 Outubro 2006

Sou um filho do tempo e não posso lamentar-me. Basta-me não esquecer que daquela safra, lá pelo equador do século XX, nasceu gente combativa e que cada Outono que ultrapassa é uma vitória sobre o destino. À minha volta o mundo vive em turbulência; parte dessa turbulência passou por mim sem me contagiar. Os conservadores de antigamente, que me educaram e prepararam para a caminhada, seriam hoje gente mal adaptada. Falhariam, porque justos, fieis, discretos e honrados. Eram o que na vida faziam; uma vida de ferroviários, artífices, operários, lavradores, administrativos, onde fizeram licenciatura, pós-graduação, mestrado, doutoramento. Hoje o mundo pertence a outros; aos que fintam a história e triunfam meteoricamente mas a quem ninguém conhece a arte com precisão; simplesmente, não sabem que a vida é menos do que um episódio.

26 Outubro 2006

15 Outubro 2006

Uma geração escreve-a; a seguinte lê.
É assim a História - o lugar dos afectos e das revoltas em nome da convicção das causas humanas.
Nas últimas décadas vai faltando alguma coisa nas páginas escritas por Portugal - ainda não descobri bem o quê: se o afecto, se as convicções. Causas não faltam.
A História destes dias não é para ler – é para escrever !
Comodismo social ou iliteracia pura?

13 Outubro 2006


Já escolheu. Quer ser professora de História. Contar histórias.
De fidalguias, de princesas e cavaleiros. Está decidida do alto dos seus dez anos. Muitos. Diz ser demasiado tarde para mudar de ideias. Quer ser tudo aquilo que escolheu. Para já não sonha deixar de o ser.
Em tempos já o quis. Era pequenina. Ela assim o conta. Queria ser médica, salvar a mãe. Mas não, não salvou. E o coraçãozinho escorregou de novo para o lugar que lhe pertence. Ao lado de reis, raínhas e princesas.

09 Outubro 2006


O mundo que os meus pais me chamaram a conhecer não tem salvação possível.
Não sendo eu adivinho, acredito que a marcha da espécie terminará algures pelas fronteiras da auto-aniquilação. Os sinais estão todos por aí, espalhados por escassos centímetros de História e de uns poucos e mal servidos metros de pré-História.
Este aparente cepticismo ocasional leva-me a pensar que o ideal será procurar levar uma vida decente nos limites do moralmente sustentável. Não me incomodo em saber se os génios da civilização, que encontram mezinhas para todos os males, acham isso bem. Eles, mais do que Copérnico, agitam este planeta cada vez que propõem, sem reservas, novas soluções económicas e sociais rumo à felicidade.
Não sei, nem me incomodo saber, dos ideais dos outros, daqueles que convivem freneticamente com os dias devorando sóis logo pela manhã. Sei que restará sempre uma estrela também para mim.
Modestamente, já entendi que uma vida chega.

08 Outubro 2006

Em meados do pretérito Setembro fez-se três anos de escrita.
Ao longo deste último ano o propósito manteve-se.
Neste espaço verti a reflexão, a ira, o sarcasmo, o poema, a crónica, o relato, com a mesma prontidão, inconformismo e rebeldia com que a retirei. Coisa de causas .Nem mais nem menos; apenas o vício e a virtude de gostar das escritas, de visitar o paradeiro de quem não se conhece mas que se vai gostando. Sorrir para quem não vi, encontrar-me com quem nunca me cruzei, escutar quem nunca me falou. É partilhar universos. Aos que generosamente me visitam e continuam sorrindo, obrigado.
Um abraço.

O Conselho de Ministros reuniu ontem na cidade berço.
Terminada a conjura, os malfeitores encontram na rua algumas dezenas de manifestantes. No meio deles alguém gritou – gatunos, chamem a polícia, depressa !!!
Dos legionários e pares do reino, nada.
E lá partiu o autocarro com os Ali Babas de Guimarães rumo a Sodoma.

27 Setembro 2006

... Procuro justificar estes longos longos dias de silêncio.
Moldei-me voluntária e pacificamente à geometria das coisas
com honras de almanaque.
Não tenho talento para escapar da mediocridade das rotinas
e do efeito das mesmas sobre os (des)encantos outonais.
Sorvo-lhe os tons, das neblinas matinais e dos poentes.
Devoto da ordem cósmica, retribuo generosa e mimeticamente em tons pastel/escarlate.
Recatadamente...

13 Setembro 2006

A precipitação voltou sob a forma de pluviosidade.
Gozou o legítimo e constitucional direito a férias.
Trouxe-nos a moleza, o “dolce far niente”… apenas vê-la chegar.
À laia de falsa desculpa
argumentamos com a preguiça - a mãe de todos os vícios.
E mãe é mãe, há que respeitá-la.

07 Setembro 2006


Porque temos raízes, poderíamos ser vinhas. Mas não. Somos humanos, apenas.
Com raízes mais ou menos longínquas. Ontem fui ao encontro delas, saciando as saudades. Douro adentro.Granítico, xistoso, edificado palmo a palmo. O Douro é hoje o suor de gerações escorrido até à foz. Ali a memória são as próprias gentes.Guardam-na, cultivam-na, servem-na aos forasteiros.
Regressei, muitos anos depois. Metade da família já não está.
Mas está, ainda, o Douro, a Régua da minha infância e alguns, poucos, dos sobreviventes desses tempos de menino. Revi fotos antigas de família, das gentes que nunca conheci e de muita outra que nunca saberei por onde anda. Mas não importa. O Douro deu filhos assim…. Bravos, fieis, com memória. Levou-os foz abaixo até à felicidade. Parte de mim reclama essa ancestralidade.
Rejuvenesci.
Estive lá…

30 Agosto 2006

De regresso ao trabalho
hora de zarpar.
Chega de bons vícios,
para o ano há mais...

27 Agosto 2006

O mundo não tem para mim hoje, menos segredos do que tinha quando adquiri por lei, a maioridade. Há quem pense que a idade é uma vantagem. Com o tempo vamos ficando discretos, macios e tranquilos, reparando mais nos defeitos dos outros que nos nossos.
Interessa-me agora mais as doenças do meu país que as do meu próprio corpo. Não importa a cadência, o ritmo frenético das coisas.
A velocidade dos acontecimentos já não me perturba, há muito que me conformei com a sua passagem e a ideia no prazer que se retira da tranquilidade e da contemplação é-me suficiente. Aliás, o meu universo está cada vez mais reduzido àquilo que apenas conheço. Os lugares, as pessoas, os aromas , os objectos.
Das palavras e de actos repetidos também. Dos locais onde cheguei, dos vales que a meus olhos nunca mudaram de cor, da papelada que não mudou de estante, do relógio de sala fora de uso a quem todas as noites alimento, das plantas que acaricio ou do cheiro a terra acabada de regar.
Por isso hoje, o meu mundo, é um espaço com a área dos meus afectos que vou gerindo sem segredos e com moderação.
Não lamento, esta é a forma como (des)acompanho o mundo com a lucidez que me é permitida.

25 Agosto 2006

Dou por mim a folhear um velho álbum de retratos. Assim se dizia no Porto provinciano. A minha cidade é o Porto. Esse velho Porto que já não existe.
O mundo da minha adolescência fez-se por aqueles lados. Trabalho duro, respeito, honra e lealdade eram as divisas das gentes. Pelo que ainda me lembro, era um mundo muito mais harmonioso do que o actual.
Há momentos irrepetíveis, que hoje não têm sentido: pedir a bênção aos pais, vestir a melhor roupinha para ir à missa, ligar o rádio e modelar a frequência para sintonizar uma estação de rádio, virar um disco no aparelho, saber onde estavam as velas numa noite invernosa.
As páginas do álbum são incontáveis e as recordações como as noites de Junho a Março. No virar de cada folha acrescento imagens que não existem mais. Gratifico o espírito sorrindo pacificamente.
Este conforto da alma é um bem muito superior ao entendimento geral do universo.

18 Agosto 2006

Saibam os meus amigos que em vão me buscaram no top mil da revista Forbes e que pacientemente estenderam essa procura pelo Dubai, em Chipre, Santorini e Saint Tropez, o quanto lamento não me terem alcançado em tais paragens.
Nesta época estival encomendei-me a paraísos domésticos. Camuflei-me lá pelo sotavento, outrora “resort “ do Almóada Yacub Al-Mansur, nacionalizado pelo Bolonhês no meridiano do século XIII e rebaptizado pela UE como o “great iberian spa”. E como são bonitas as noites naquele semi-Mediterrâneo caseirinho. Amenas, secas, sem aquela infectante mosquitada inglesa antes despejada hora-a-hora por aeronaves de linha branca, ali perto da Ria Formosa.
Agora tempera-se o olhar e partilham-se as sombras com os esfíngicos nórdicos.
Discretos, práticos, frios. Tal como eu, viajam.
Dizem, os sábios, que viajar faz esquecer. Os sábios não sabem é nada de sentimentos.
Atira-se com o corpo para a areia, cerram-se as pálpebras, dá-se volume ao “ai-pode” e libertam-se os sentidos sem perturbar a vizinhança. São férias. Fica mais tempo para não esquecermos. Assim, discreta e friamente, como os meus vizinhos nórdicos em transumância, orgulhosos da sua coloração pink.
Ah…, agradeço ao almóada, ao excomungado Afonso das duas esposas e ao meu patrão, terem ajudado nesta minha acérrima consciência cívica de deixar as poupanças entre os meus… (razão pela qual a Forbes não quer nada comigo e os meus inimigos jamais me verem citando sábios).
Fiquem bem, por aí, neste semi-qualquer coisa.

07 Agosto 2006



Entre o azul e o verde
a terra e o mar
um pedaço de mim - Monte Gordo




21 Julho 2006

Ninguém sabia que carregavas o Sol;
por isso nada parou quando chegaste.
Eras de longe e tiraste da sombra as oliveiras e a tristeza dos girassóis;
vimos como sorrias e fazias sorrir.Assim multiplicaste abundância entre as searas,
pintaste as floreiras com as cores preferidas dos meninos.
Havemos de chorar, quando partires... mas não à tua frente,
e o menino, o jardineiro, o ancião e o moleiro logo saberão que estamos tristes.
Os nossos dias ficarão sombrios , o celeiro magro, as jarras vazias.
Fica - talvez não saibamos rir na tua ausência.

20 Julho 2006

..... até já ..... ..... ..... ..... .....
partimos no dorso dessa aragem que nos carrega para coisa nenhuma.
Partir é aprender a perder. E partimos sem querer, querendo !
Desenhamos apenas o último abraço,
e de braços caídos
evitamos desfazer esses nós.
O destino é isso, é partir porque há uma vida para escrever,

e fica-se com saudades do futuro…

17 Julho 2006

Sob o gume ímpio deste Sol
dos tormentos das poses
e dos desejos consentidos,
já dúvido que o Inferno
nos ofereça mais agonia aos corpos.

11 Julho 2006

A verticalidade do homem era incomodativa.
Os maledicentes segredavam que aquilo era defeito de trajecto; outros apenas problemas de coabitação.
O tipo esperou uma jornada monótona no Mundial 2006 e marcou um golo, à ministro; demitiu-se.
Afinal o problema não era senão um pequeno desvio para a esquerda. Uma espécie de escoliose ideológica.
Há muito que não a tinha direita e isso provocava dores nas costas, sobretudo de outros.
Entretanto, a tal atracção pela esquerda foi reorientada, esperemos,
com sucesso negocial.

10 Julho 2006


“The end” - Não há mal que não acabe mal.



Com um alívio profundo, acabou a cimeira da bola. Os países encerraram um extemporâneo carnaval histérico.
Quase todos ficaram felizes com o regresso dos deuses.
Eles partem para férias, para lugares civilizados, paradisíacos, repousantes, lindos. Luxos só permitidos aos heróis. Os mortais ficam por aí, no económico, no frugal barraco lusitano, recuperando de um mês de instabilidade emocional dominado pela romântica subjectividade que tolhe o entendimento da razão.
Para a história ficará uma selecção nacional que cumpriu os serviços mínimos na fase de grupos: venceu as emergentes potências do futebol mundial (Angola e Irão) e a um colosso da América Latina (o México). Seguiu em frente, onde apenas ganhou um, pela diferença mínima (à Holanda), empatou outro (Inglaterra) e perdeu os últimos dois (França e Alemanha). Chega para saciar a fome?, digo, para sermos campeões? E no desfecho do concílio esférico, um dos deuses acabou a sua carreira desportiva dando uma cabeçada no coração de um italiano. Não sabemos o que o execrável romano disse ao mago árabe, mas o que quer que tenha sido, matou-o.
Nenhum deus com um pingo de honra sobrevive a um gesto tão humilhante e poderoso como é uma cabeçada no coração.
Foi como se todo o mundo precisasse de saber que eles sabem como levar a dor aos corações dos crentes.
E da infinita grandeza do gesto se retirou mais um do altar Olímpico.
Apagou-se a luz.
Enrolaram-se os estandartes
E somente o que reluz, é ouro!

03 Julho 2006



cada vez menos pequenina,
a filhota
é a energia
que a doçura
da sua companhia
nos dá
em cada dia
das nossas vidas.

23 Junho 2006

Acabou de fechar a última porta…
apertou nas mãos frias uma chave
rubra de orfandade.
Assinou histórias com muitos anjos,
daquelas histórias em que não importa
quando foram escritas
ou como se escreveram,
mas apenas que se escreveram
letra a letra.
Narrativas abertas
onde alguém fugiu de desenhar a última palavra.
Entre silêncios
fechou porta
a última porta
E deixou correr as lágrimas…

- como quem se agarra ao último pôr-do-sol.

10 Junho 2006

No emprego era a única alma que lia o Expresso. Primeiro, fazia questão, depois fez disso uma tradição. Por fim, as folhas largas davam jeito à mãe para forrar caixotes da fruta ou atapetar o poiso dos felídeos. Em duas décadas de profissão nunca vira por lá alguém a ler o Expresso. Os colegas liam o Correio da Manhã, Tal & Qual ou A Bola. Antigamente, O Diabo, o Avante, mas agora os tempos mudaram e os gostos também. Ficaram intelectuais. Ler o JL ou o Jornal de Negócios em frente do chefe, seria uma provocação; ousadia mesmo. Toda a gente a conhece; cumprimentam-na e depois de passar soltam um – “ali vai a maluca do Expresso". Hoje bem cedo foi comprar o Expresso. Mais cedo que o costume. Aquele título sobra sempre no quiosque. O homem fica sempre com Expressos até ao sábado seguinte.Mas hoje, não havia. É que hoje trazia a bandeira! A portuguesa !
O povo aderiu e aquele farrapinho dava jeito à janela. Assim exibem orgulhosamente uma virilidade dinástica.Satisfez-se com o Diário de Notícias. O fulano do quiosque entregou-lhe o jornal com um cachecol verde e vermelho. Era brinde. Devolveu-lho, rapidamente. Arrependeu-se, era de bom material para puxar o brilho aos sapatos engraxados.
Na sua paróquia, uma quantidade razoável de vizinhos levou para casa uma bandeira nacional. Poucos lerão o jornal mas, a rua estará mais enfeitada. Sei também que ela, por esta semana, cedeu o epitáfio de “a maluca” a todos os outros , ainda que muito lhe apeteça bater às portas pedindo emprestado o jornalinho.
Que interessa o pão se preferem circo?!

04 Junho 2006

Alienado com a bola,
é assim que o país anda.
O governo agradece.
Os crescentes gritos de apelo
dos professores, dos agricultores, dos homens do mar,
passam despercebidos. Anda tudo com a cabeça na bola.
Aquilo que é óbvio, parece ser ópio.
É como se estivessem plasmados, cintados, bonitinhos.
Parece que ninguém precisa de estímulos para se entusiasmar com o futebol.
Enquanto a plebe se baba com o estandarte luso,
os malfeitores de fraque tomaram de assalto o Terreiro do Paço.
Aguardamos que o país nos dê tudo aquilo que Abril prometeu.
As reformas fazem-se com as pessoas,
nunca contra elas.
Quanto ao resto…
Há dias,
há sim…!

16 Maio 2006

Nasceram antes da Internet. Muito antes da informática. Muito antes do armistício. Sentavam-se num banco de madeira, verde escuro. Na praça. Em tardes que se faziam quentes. Aguardavam. Esperavam o Verão, o caldo, o rossio da noite. Falavam de patrões, das gentes sem dias, dos meninos sem escola. Curtos na prosa, longos nos silêncios. Perderam as sombras antes de Abril ; perderam o sol com o capitalismo. Ficou tarde para emigrarem, demasiado tarde para sonhar. Hoje o banco perdeu o verde. Está vazio. A praça também. Não há quem fale do custo de vida, das escolas sem meninos, das aldeias sem filhos, dos patrões sem empregados, das estradas que não trazem. A velhice há muito que lhes negara o calendário. Levou-os. Obscenamente, antes de um pedaço da vida…

15 Maio 2006

Conheço todos os cães da minha rua. Até há um que só me fala quando levo livros.
Sim. É verdade. Um dia disse-lhe uns versos e calou-se. Ficou calado a escutar e só recomeçou a latir quando percebeu que eu tinha parado. Voltei a recitar os versos e ele sossegou. Gostou. Agora digo-lhe versos todos os dias que por lá passo. Tem dias que não está e sinto saudades. Quando a dona aparece, disfarça, põe-se a latir com força direito a mim e eu também disfarço, afasto-me como se me assustasse com ele. Não deve ser fácil ter uma dona assim, que espera que te comportes sempre da mesma maneira com todas as pessoas e se orgulha com a fidelidade do bichinho que a protege.
Conheço os cães todos da rua, as pessoas não.

11 Maio 2006

Basta um estudo ser feito no estrangeiro para ser uma verdade absoluta. Correm as primeiras páginas! Abrem serviços noticiosos e servem de temáticas para pós-graduações.
Eu acho mal, rio e desconfio deles.Recentemente foi publicado mais um que nos põe, também nessa matéria, na cauda da Europa (o que eu acho um pouco apaneleirado). Dizia que em Portugal só um terço das mães amamentam os filhos até aos seis meses!
Inconclusivo; não percebi se os restantes são amamentados pelo pai.Mas, concluía o dito, que em Portugal mamamos pouco. Pouco?... Nada mais errado: o que não falta para aí são mamões! Anda tudo à mama!... Uns mamam no Estado, outros andam a mamar à conta dos empregados, outros andam a mamar à conta dos patrões, outros andam a mamar à conta dos subsídios, outros andam a mamar à nossa conta e depois há os outros que andam à conta das mamadas… mas isso é outra coisa…
Portugal tem até uma tradição de mamões profissionais, que são os que andam indefinidamente a mamar à conta dos pais. Serve de exemplo um amigo bem mais velho do que eu e que ainda vive em casa dos pais. Mas agora está a passar por uma fase má. É que desde que se desempregou passa muito tempo em casa da mãe onde a escultural criada lhe vai dando cabo da cabeça…

10 Maio 2006


Destas mãos voou a cada página.
Era um espelho, um rio, uma paixão narcísica.
Houve uma velha, um moleiro, um lenhador e até um poeta.
Duas asas e uma varinha de condão.
Um abismo.
Hoje, tudo terminou.
Ela recuperou as asas.
Suspiraram…
Fugiu-se-nos a voz.
Fecharam a contracapa.
Oriana está de regresso à estante.
(até que nova mão a deixe voar)

06 Maio 2006

Profissão: MÃE - incondicional .

Não existem argumentos para se amar a mãe
Ama-se a mãe porque... é mãe!

04 Maio 2006

Oriana hoje repousou em minhas mãos.
Segurei-a com carinho. É assim que cuidamos as fadas.
Esta não é diferente. É fada em papel e do papel se ergueu em fantasias.
Desconheço outras que não povoassem a imaginação de quem as escuta em tais prodígios.
Fez-se silêncio. Tudo parecia frágil, leve, intemporal.
Respiraram-se fundo os perfumes de fim de tarde.
Oriana fazia efeito.As tardes e os sonhos vão morrer dentro de casa.

03 Maio 2006

De que são feitos os sonhos?

Assim gostava de ficar.
Imóvel. Sentado. Cotovelos na mesa.
Queixo repousando nas palmas das mãos.
Esperava a sobremesa que nunca chegara.
Serviram-lhe o sono.
Pintava os sabores com a imaginação.
Amarelo gema, amarelo limão, castanho canela, branco leite, branco farinha, branco açúcar.
Docinhos, muito fofos.
Iguaria de todas as noites.
Sonhos.

01 Maio 2006

Há histórias que devem ser contadas pelo fim. Pelo ponto.
Um ponto grande. Um ponto perdido num espaço enorme como a imaginação que nos fica para lá do fim do livro. É isso ! Um ponto do tamanho do Sol, num espaço da imensidão da página. Duma página que nunca queremos branca, vazia. Numa página que podia ser o céu. Um céu grande, tão grande, que crescera para além dos nossos braços. Desse céu que nos abençoa, ora povoado de flores com cheiro a terra quente, ora agasalhado em algodão transpirando maresia.
Sabes, foi esse Sol que desenhou esta história e que a terminou. Aquele que doira as coisas simples. Pode ser velho, gordo, grisalho, amarelo, agressivo, fugidio, ausente, mas é assim que o conheço. Assim conheci os heróis anónimos de todas as histórias com pontos. Trespassou nuvens densas, deu luz às sombras, iluminou cabecinhas, semeou sorrisos e até aqueceu corações ........ de tão cansado empalideceu escorregando no horizonte, discretamente, sem despedidas. Algures reclamavam-no.
Naquele céu, grande, enorme mesmo, não havia mais um pedacinho de tempo para ele. Nenhuma página merece dois sóis.
E lá caminhou para o seu lugar, o fim da linha. Pronto; ............................. ponto.
Não há parágrafo. Porque ele volta (talvez amanhã) em novas histórias.

28 Abril 2006

Sabes, acho que nunca te disse, mas às vezes fazes-me lembrar o céu.
Cresceste para além dos meus olhos. És tão grande, tão grande, que só mesmo os pássaros e os anjos podem viver em ti. Ambos fazem ninho onde os Homens não chegam. Mas ninguém esconde o céu, disseste-me uma vez, sem saberes ainda que falavas de ti. Foi quando cresci. Foi quando o céu passou de um lado ao outro da minha vida, num círculo que me deixou agarrado em ti. Circunferências dentro de circunferências. E eu dentro de mim. E os pássaros e os anjos dentro de ti.
Tudo começou assim….Foi há tanto, tanto tempo, que se calhar, ainda não sabia que o céu eras tu, nem o azul do céu era só meu.

24 Abril 2006

Gosto de ficar numa cadeira entregue ao nada.
De olhos fechados a imaginar sorrisos.
Sorrisos pequenos, tímidos, frescos.
Gosto de prolongar o assento até chegar a lua
E vê-la sorrir, algures
Lá no alto, no centro do nada
Só, para mim.

23 Abril 2006

Transporto comigo o teu sorriso – o sorriso de deus.
Está escrito num livro com centenas de dias e a doçura dos anos.
Um livro que cheira a saudade. Um livro com sons, aromas e cores.
Um livro onde as páginas sabem a sal.
É o meu livro , não apenas um livro.
Um livro é uma Vida. Com letra colorida.
Vou ao prefácio, sorrir para deus.
Até já.

22 Abril 2006


O relógio – a única coisa que sabe viver meticulosamente
cada segundo da vida.
Enquanto ele se diverte eu apanho os pedaços do tempo.

21 Abril 2006

Shhh...!Shhh...! Pouco barulho. Encosta o teu ouvido às letras.
Hoje vou desenhar segredos com os dedos, vou percorrer caminhos de palavras que vão direitos a ti. Alarga os braços para os acolher.
Shhh...shhh...Vou contar-te histórias sem príncipes nem princesas bonitinhas.
Shhh...shhh... e sei que não me vais perguntar nada porque nunca perguntas e me dizes que entre nós o silêncio encerra a emoção de uma linda festa...
Shhh...shhh... não faças barulho.
Deixa-me dar-te estes segredos, porque a esta distância é tudo o que te posso dar.

17 Abril 2006


Ah-ah !!! Lamento informá-lo, mas acaba de ser apanhado em pleno acto pecaminoso e devia confessar-se numa Igreja perto de si.
Mas não se recrimine. Com esta actualização dos pecados eu mesmo sou muito dado à pouca vergonha. Leio jornais, vejo televisão e vagueio na web. Pecador irredimível, ainda me deu para esta coisa : ter um blogue! Quanto à Bíblia, nada. Por outra, já a li e ponto.
A maioria dos meus conterrâneos conhece a Bíblia, mas no que toca à leitura de jornais e à navegação na internet, vive praticamente em abstinência. Não imagino por quanto tempo pois a tentação espreita em cada esquina: os jornais fazem campanhas e chegam mesmo a corromper as almas oferecendo outros produtos igualmente pecaminosos, como livros e cd's, tudo para que as pessoas os leiam. Mas há sempre quem vá resistindo em prol da castidade, claro, fugindo às disfunções sejam elas erécteis ou não.

09 Abril 2006

Nunca tanta Lei serviu para tão pouco.
A Constituição da República Portuguesa celebrou 30 anos.
Concluo que nenhuma lei foi exemplarmente boa e que nenhuma foi estampada com a intenção de libertar os homens. Todas nasceram sob o receio da perda, do engano e da desconfiança.
Nenhuma foi escrita por seres livres, nem para seres livres.
A lei destina-se a assegurar que o poder dos homens se exerça sobre outros homens.
Ela é o Verbo divino aplicado ao humano.
A lei que rege a cidadão está longe da lei que rege o Céu e se o Estado é laico, então as coisas pioram. Pioram porque o argumento religioso foi muitas vezes usado na História para justificar atrocidades cometidas em nome da Lei contra homens e não contra divindades.
A lei dos homens não bastou para impedir os ímpetos dos deuses.

08 Abril 2006

Quando disseres o meu nome deixarei de existir.
Sou massa de moldar nas tuas mãos
e não posso fugir do meu corpo.
Deste-me o tempo mas não encontro o momento de partir
naquele comboio que dizem passar na estação da felicidade.
Tens aquele olhar que não se vê, uma boca que nunca se ouviu.
Nunca dizes uma palavra, que eu tenha escutado.
Dás-me sinais de ti e desapareces de novo.
Tudo está escrito: o princípio e o fim.


07 Abril 2006


Nada pior do que a rotina.
Porém, gostamos de rituais.
Nós gostamos da vida como ela é.
Não se chateie, por favor.
Não mude nada.
Não agite, nem grite.
Não se transforme, não desarrume.
Nada na existência é mais do que liturgia.
Deixe-se estar como está, porque a vida é mesmo assim .
Aceitamos as coisas como são e como estão.
Só assim conhecemos tudo.
Nós gostamos da vida terrena como ela é.
Fique bem.


................... Encontramo-nos no céu.

(carregue na imagem para ler o texto em tamanho normal)

05 Abril 2006





Vim por aí
É crescida a noite.
Subi à mais alta montanha para ver o sol nascer...
Empurrado pelo vento na pressa de poder ser.

É escuro
Á minha volta, sombras. A minha sombra...
Confundo-me na noite.
Ninguém sabe quem sou, para que sou, para quem sou...
Vim apenas, para onde o vento me levou.

Morre a noite,
Açoita-me o vento.
Viagem que dissipa o tempo
Por quantas mais noites serei Eu ?
Uma resposta que a sombra calou
E descerei a colina, por aí, resignado

... e nada me resta senão o que sou.

16 Março 2006

___ Neo galicismos ___
As novas leis laborais têm disto.
Da velha Gália arribam novas posturas
perante o valor social do trabalho.
Se és contemporâneo(a) de Sylvie Vartan, de Biarritz, de Mary Quant,
do Bonanza, da laranjada, do TV Rural
ou da Crónica Feminina , então és cota ,
não te dão emprego.
Se tens estudos mas não tens experiência,
és puto, naif, sem valor acrescentado.
Prepara-te para os humores do Boss; levas com a sarda quando menos imaginas.
Em suma, diverte-te a estudar.
Parte a carola, o mobiliário urbano, o que entenderes.
Discordas? - Pede o livro de reclamações aos chineses.

09 Março 2006

O país da meia-dose versus fartar vilanagem.
A intronização do Silva foi o paradigma do esbanjamento.
A insaciável vilanagem que se nutre da moribunda classe média lusitana destonificada a cada dia que passa, vai-se glorificando com as misérias terceiromundistas a que assistimos.
Nesse dia, o paizinho saiu zangado com os maganos e não ficou para o tradicional bacalhau.
Já dizem que o bonsai é mais fashion que o cravo.
Como reabilitar a clandestinidade?

06 Março 2006


A propósito de um texto excelentemente chancelado pelo mui estimado Tony M. recordei-me de um tal Belmirinho dos meus tempos de infância que lá pelas bandas do Douro preenchia as conversas mais animadas das tórridas noites transmontanas. Morria de amores pela Maria do Socorro, uma donzela senhora de um forte buço havia mais de quatro décadas. Nunca chegara a ouvir a mais inócua declaração sentimental. Belmirinho Marrafa embebedava-se na taberna do Quim do Pincha o que lhe retirava lucidez para formalizar proposituras de amor.. . Mas era homem de casa posta, viajado rio abaixo, tropa feita, especialidade em Lanceiros, ajudante de bombeiro, ferroviário exemplar e por vaidade sócio do grupo excursionista Vai-e-Vem-te. Quando sóbrio, era indivíduo sem pecados mas quando o sol escorregava no horizonte convertia-se em aprendiz de boémio.
Maria do Socorro aguardava beneditinamente que os efeitos etílicos desaparecessem da vida desta criatura, para poderem dar o nó. Em vão. Foi envelhecendo como o néctar destas paragens em cascos de carvalho; ficando melada e perdendo a tez, tanto que desistiu de aparar o buço. Havia machos nas redondezas que desdenhavam tal bigode.
Certo domingo Belmirinho num fugaz salto a Moncorvo, trouxe à amada uns três quilitos de fumeiro como pretexto para esquecer uma zanga tida entre ambos. A escassos metros de casa estragou a postura na tasca do Pincha …e que penoso foi caminhar em linha recta o bocadinho de ruela que faltava até à porta da Maria. Uma a uma as chouriças foram sendo arrancadas do cordel que agarrara à cintura. Uma dúzia de enchidos deliciosamente tragada pelos cachorros. Marrafa não tinha saída; como convencer a donzela que na ponta daquele fio-do-norte tinha havido uma recordação especialmente comprada para ela ? No dia seguinte comentavam os vizinhos que dos olhos de Maria do Socorro saíra mais fumo que das locomotivas a vapor a caminho de Barca d´Álva.

23 Fevereiro 2006

Sampaio aproveitou as promoções dos últimos dias e resolveu pôr-se Nelas numa rapidinha bem cedo. Mas consta que em dez de mandato nunca foi à Coina nem foi visto na Venda das Raparigas. Não pôs as mãos em Porches, nas Bogas de Cima nem vestígios dele em Penso de Baixo. Acometido por uma virose de higiene e limpeza das instalações a vagar brevemente, entendeu arejar as assoalhadas e vai daí, condecorou tudo quanto era bicharoco que se passeava nas calçadas de Belém. Serão de fantasia aqueles pendurcalhos? Bem, se não o são e a fazer fé no brilho que emanam, custou dar graxa àqueles adereços mas bem menos terá custado ser candidato a ter uma ao dependuro. Uma perguntinha discreta ao chanceler das ordens – não existirá uma comenda por aí perdida para galardoar a mais honrada das instituições colectivas da lusa pátria? Quem? O povo, claro!!!! A plebe não tem fatinho para receber a insígnia? Ignore isso, prenda o alfinete no toucinho, afinal é apenas mais uma alfinetada e além disso distinção sem sangue não é honra!

13 Fevereiro 2006


E nesse pedaço de amargura
a que chamam vida,
a mulher sai duas vezes de casa -
quando vai para casar e para enterrar;
viveu vigiada pelo pai, vigiada pelo governo , pelos vizinhos, pelo marido e pelo profeta.

11 Fevereiro 2006

Lavem as mãos,
a Caldeirada está pronta a sevir

O estado de saúde de Ariel Sharon deixou Israel vulnerável e indeciso.
Hugo Chavez hostilizou abertamente os States e Bush.
O mundo islâmico arde em revolta.
A Europa estranhamente encolhe-se em silêncio.
O Vaticano inspira-se na exclusividade de Meca e reivindica a gestão do santuário de Fátima.
V. Putin diz que o Hamas não é um grupo hostil ao mundo civilizado.
Enquanto isso, Coreia do Norte e Irão vão descobrindo o poder nuclear.
A China está indiferente , neste momento a sua religião é o capital das multinacionais.
O preço do petróleo ameaça disparar.
Em África sobrevive-se à fome.
As alterações climáticas desertificam regiões.
As ondas migratórias ganham foros de tsunamis.
... ... ...
não posso ficar sentado
quem for mais paciente, que continue a narrativa por favor.

01 Fevereiro 2006

Há um longo e agoniante entardecer
Mais longo que estes intermináveis dias frios
Onde me recolho em silêncios e arrepios
aprisionando a energia do meu ser.

Há um longo entardecer agoniante
Que nos apaga, enregela e não seduz
Inferniza quem suplica por luz
E nos mergulha num tédio abundante.

Pois que haja sempre entardeceres
Muitos pedaços de dias já vividos
Lições de vida em gelo devolvidos
E que deles fiquem todos os saberes.

MelloP ©

29 Janeiro 2006


Sempre defendi o meu irmão mas desta vez, excedeu –se !
Após uma longa discussão com o nosso Guru, foi deserdado.
Não consegui, fui impotente em sua causa porque não havia defesa possível. Apoiei-o quando apareceu em casa com uma crista na cabeça dizendo que era moda; escudei-o quando decidiu aparecer com uma tatuagem no braço estilo presidiário livre com pulseirinha no pulso qual gestor público com registo criminal imaculado, ou até quando apareceu na ceia de Natal uma Matrioska de sete meses que ensopava bacalhau com vodka. O nosso ortodoxo Pai (que não adormece sem beijar o santinho Padre Cruz) foi ficando roxo, aceitou tudo isso, mas esta semana não perdoou ao garoto - foi longe de mais... Ir ao Casting dos Morangos com Açúcar fardado de sportinguista, não tem defesa possível...!!!

22 Janeiro 2006


A geografia política não se alterou.
O povo continua implacável para com os usurpadores do pedaço.
Alegremente desenhamos um novo espaço - o da cidadania sem compromisso da cor.
E aínda dizem que não há vitórias morais.... (!)
Façam o favor de encher a boca com os novos sabores da liberdade!

17 Janeiro 2006

Disseram-me que o sonho de Sócrates é fazer de Portugal a nova Finlândia da Europa.
O quê? Vamos ficar ricos?
Não é isso!
Então, vamos ficar civilizados?
Não é isso!
Vamos ficar mais altos?
Nem penses!
Será que vamos passar a poder confiar nos políticos?
Era bom, era!
Então? Vamos ficar loiros, é isso?
Loiros, loiros, não – mas burros certamente.

12 Janeiro 2006

Vou ter saudades das suas formas, da silhueta torneada onde acostava delicadamente a mão. Era o êxtase adicional do repasto, desafiando qualquer língua para a trivial lambidela sôfrega pelo bico onde corria o néctar da mais divina terapêutica medicinal. Finda este viril hábito lusitano que honrou morgados e varões – adeus Galheteiro.

03 Janeiro 2006

Quando nasci
todos sorriram - menos eu.
Chorava!
Nasci de um grito que me trouxe à vida
e logo, logo, irrompeu o dia.
Nasci da dor e do amor
Em casa quente, alvorada fria.
Foi hora de tréguas, de emoção embriagada
Mas houve Copérnico e não mudou nada.
Não parou o ponteiro na eterna caminhada.
Nem houve eclipse nem rasto de meteorito,
Nasci apenas
Saudado por um grito.
Hoje, bendigo
E festejo em silêncio todos os gritos de minha mãe.

28 Novembro 2005

Segundo um estudo recente, não encomendado, o virtuoso Só Kratz tem-se revelado um génio da arte de “fechar porque é diminuto“. As medidas de contenção não podem deixar de surpreender.
- Alguns estabelecimentos prisionais vão encerrar;
Não há clientes ou será melhor aquilo tudo ao monte?
- Centenas de escolinhas vão fechar;
Mandar os putos prá grande metrópole com lancheira e tudo.

- Fechar a Portela porque é apertadinha;
Vêm aí galáxias de multidões e isso é que é bacano.
- Maternidades onde se abrem poucas pernas encerram;
Mamãs vão parir para as Estradas Nacionais (o IEP irá cobrar taxa?)
- O Metro do Porto pára obras em projecto;
Contenção a rigor, metro que é Metro só pode ter 80cm.

- A nova ponte da Trafaria não irá ser nova;
Por excesso de pontes o Porto irá ceder a de D. Luís.
- Obras em tribunais estão congeladas;
Os agentes judiciais que se habituem a trabalhar apertadinhos (é sexy e no Inverno é bom).
- Nova viaturas para os Ministérios nem pensar;
Foi aberto concurso público para aquisição de Fiat Panda para os ministros (patins para a da Educação).
- Bibliotecas, Museus e Arquivos Nacionais sem acréscimo de verba;
É preciso ler na cartilha deles e admirar as suas obras. É desta que a Torre do Tombo vai cair!

- O dito choque tecnológico vai despertar;
Favor meter os dedinhos na tomada da DGCI para saber como.
- Municípios com menos de três grosas de morcões vão fechar;
Imagino as ilhas do Corvo e Flores ficarem para recreio das carragas.
- Dialectos falados por insignificante número de labregos, ficam proibidos;
Lá se vai o guadramilês e todos os seus falantes. Já imagino:”exilado por causa da perseguição da língua”.
- Espectáculos com ou sem custos jamais serão subsidiados;
Mais clubes como o Vitória de Setúbal a dar show e o primeiro a voar no Falcon da FAP para os ir ver.

- Quadros hospitalares sem abertura de vagas nem aumento de instalações;
Enfermeiros e médicos de turno passam a descansar na camas com os doentes.
- Estradas sem buracos vão encerrar por falta de mais-valias;
Serão reabertas após tapar o buraco do ozono.
- Anões, enfezados e vítimas de raquitismo ficam sem subsídio;
São económicos mas dá muito trabalho andar à procura deles.
- A redução de capturas de pescado é irrevogável;
Saboreiem bacalhau ou encham a boquinha de linguado.
- Uma dúzia de unidades militares serão encerradas;
Juntam-se todos e jogam à batalha naval. (o Barracuda ainda flutua?)
- Terminaram os subsídios para as cotas leiteiras;
Enxofradores e azeiteiros apresentem recibo verde.

- A lista dos contribuintes com dívidas fiscais será divulgada no próximo ano;
Aposto que os governantes aparecem com pseudónimo!

Bhaaaaaaaaaa…………
Encerrem este governo por falta de liquidez.